A economia circular é uma alavanca de competitividade para o Brasil

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economia circular / foto: rmai

Em recente artigo na Newsweek1, Joaquim Levy relembrou a importância e a oportunidade dos investimentos sustentáveis para resolverem tradicionais gargalos brasileiros como as infraestruturas de transportes, saneamento e resíduos sólidos. Ao longo de seu artigo Levy também ressaltou todos os incentivos que o Brasil possui para liderar a transição em direção a uma economia mundial mais sustentável. Mas, principalmente, alertou que devemos ter atenção para não ficar para trás.

É impossível não concordar em gênero, número e grau com o ex-Ministro. “O Brasil está no G1 da temática ambiental”, como uma vez ouvi comentar Izabella Teixeira, nossa ex-Ministra do Meio Ambiente e uma das principais arquitetas do Acordo de Paris.

Nosso país tem tudo para se fortalecer com a agenda do desenvolvimento sustentável, e isso, muito além de uma “simples” alavanca de soft power em suas relações internacionais.

A economia circular, por exemplo, muito além de ser a nova queridinha das comunicações corporativas, deve ser levada muito a sério como eixo de desenvolvimento estratégico para o país.

A competitividade da nossa economia está em jogo tanto em sua oferta doméstica quanto em sua inserção nas cadeias globais de valor.

A indústria pneumática é o exemplo perfeito de uma cadeia de valor que tem no Brasil uma avenida de oportunidades graças a circularidade e que esbarra nos clássicos freios de desenvolvimento do nosso país.

Me atentarei aqui, principalmente, aos insumos e aos novos modelos de negócio.

Começando pela matéria-prima cuja a história está intimamente ligada ao desenvolvimento econômico do país.

Apesar de ser uma árvore originária do Brasil e especificamente do bioma amazônia, a seringueira ou hevea brasiliensis, foi introduzida e se expandiu rapidamente no sudeste asiático no final do século XIX. Hoje, em países como Tailândia, Indonésia e Malásia se encontra, de longe, a maior parte da produção mundial – e isso graças a agricultura familiar.

No Brasil, desde os anos 1960 a demanda de borracha natural é superior à oferta doméstica. A produção nacional, que se concentra hoje em São Paulo, atende 40% do mercado interno.

Além desta clara oportunidade de mercado para incentivarmos a cadeia da borracha no Brasil, a economia da seringueira deve também ser vista como uma alavanca socioambiental interessante.

Em áreas de reserva legal seu cultivo pode ajudar o produtor rural a cumprir com suas obrigações ambientais com um mínimo de retorno econômico. O incentivo é evidente.

Na Amazônia, apesar da falta de competitividade puramente econômica da borracha de origem extrativista, seu alto valor de preservação florestal e de desenvolvimento social devem ser “marketeados”. O consumidor está cada vez mais demandante de rastreabilidade e de impacto positivo e nossa Amazônia e sua bioeconomia são um prato cheio para o consumo consciente.

Por isso devemos considerar os incentivos para a produção extrativista como investimentos socioambientais de alto impacto. Podemos facilmente calcular o retorno para o planeta de cada real gasto no fortalecimento destas cadeias visto o recuo proporcional de atividade ilegais como o garimpo e o desflorestamento.

Além da borracha natural, são inúmeros os insumos utilizados na indústria pneumática que encontram, no Brasil, substitutos renováveis. Podemos mencionar, por exemplo, o butadieno feito à base de cana de açúcar e a sílica de casca de arroz.

Destaco, também, as alavancas de competitividade que a economia circular encadeia com evolução dos modelos de negócio e que avançam rapidamente graças ao rápido trem (movido à hidrogênio) da economia 4.0

Visto que pouquíssimas pessoas compram um pneu para exporem como objetos de decoração em suas salas-de-estar, o consumidor de um pneu compra nosso produto para ter mobilidade. Por que não vender, então, o uso deste produto como um serviço?

Na Michelin, por exemplo, há mais de quinze anos desenvolvemos produtos de alto desempenho que possibilitam a empresa, em determinados setores, a não vender o ativo pneu, mas sim faturar o seu uso como um serviço. Seja para transportadoras faturando o custo por quilômetro do pneu de carga, seja, também, por exemplo, faturando a tonelada de minério transportada por quilômetro dos pneus gigantes na mineração ou ainda as aterrissagens realizadas por um pneu de avião.

O famoso “product as a service” é uma realidade na indústria pneumática há décadas, mas não se desenvolve no país por conta, principalmente, do seu conhecido “manicômio tributário”. O roteiro é sempre o mesmo: faturar o serviço de um pneu e recolher ISS não seria evasão de ICMS? Diagnóstico: Multa.

Pode ser um risco tributário inovar no Brasil. A economia perde. O Brasil perde. O planeta perde.

A onda de reformas estruturantes que vivemos deve considerar a economia circular como alavanca de competitividade. O Brasil não pode ficar para trás.

1 https://www.newsweek.com/brazil-sustainable-growth-bounce-back-economy-1484’435