pandemia
pandemia

Por Maurício Patrocinio, empresário especialista há 27 anos no ramo de Venda Direta e Marketing de Relacionamento. Escritor de dois livros: “Relacionamentos Enriquecem” e “Por que as pessoas não são felizes”, Maurício compreendeu que a chave do sucesso está em uma convenção simples e em uma emoção natural do ser humano: o relacionamento e a felicidade.

Não é difícil escutarmos histórias próximas e frequentes de pessoas que “piraram” durante a pandemia. Sejam amigos nossos, sejam colegas de trabalho, sejam os vídeos e memes que circularam nos grupos de WhatsApp e internet, vivenciamos, além da maior crise de saúde e econômica global dos últimos 100 anos, quem sabe da história, uma crise de identidade e de presença.

Recentemente li sobre um estudo realizado pela empresa de pesquisas Harris sobre a pandemia e as relações das pessoas com o trabalho no qual a conclusão foi de que 44% dos brasileiros entrevistados relataram uma sensação de Burnout. O Brasil, pasmem, foi o primeiro país da lista. 

Segundo o Ministério da Saúde, “Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional é um distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico resultante de situações de trabalho desgastante, que demandam muita competitividade ou responsabilidade. A principal causa da doença é justamente o excesso de trabalho”.

Se bem, é claro, que existem pressões cada vez maiores nas empresas, sem sabermos qual é o pico dessa “epidemia empresarial”, seja pela obtenção de maior produtividade, menores custos, maiores lucros, maiores valores das ações das empresas, entre tantas outras pressões, por outro lado há também a relação que nós temos com tudo isso. Em especial, os brasileiros, ou para não ser tão duro com o nosso povo, os latino-americanos.

Por quaisquer que sejam as razões históricas, em minha opinião, nós temos uma síndrome complexa quando se trata da relação que temos com o trabalho. Parece que temos que sofrer para ter sucesso e que o sucesso sem dor, não tem valor, em geral nomeamos de sorte. Não é raro escutarmos, ou pior, falarmos com orgulho que não tiramos férias há X tempo, e mais bizarro, nos sentirmos culpados por isso.

A pandemia nos trouxe a obrigação de melhorarmos estas relações, coisa que antes ainda era aliviado com os happy hours ou até mesmo com o trânsito. Éramos obrigados a parar. Já neste momento que passamos no qual apenas podíamos sair de casa para comprar comida ou remédios, não havia uma distração obrigatória ou casual, então fomos chamados para a responsabilidade de termos disciplina e até mesmo de estarmos mais presentes. Consequência disso? Um monte de gente pirando. Não apenas o Burnout, mas se nos dermos conta do número de depressivos durante esse período, do número de separações, entre tantos outros resultados que podemos notar.

O que notamos? Notamos que não somos felizes. Notamos que fazemos por medo de perder o emprego, pela necessidade de provarmos nosso valor, pela necessidade de sermos melhores simplesmente por termos que ser melhores. Notamos que nosso projeto de vida é, em geral, apenas focado no profissional ou quando muito aliar o profissional intenso e estressante com prazeres que aliviam as suas consequências. Sem nos preocuparmos com nossa qualidade de vida, deixando a vida levar, sem olhar para os que tanto amamos e, de repente, perdemos porque não cuidamos, passamos a vida e o tempo distraídos em um ciclo vicioso de infelicidade e em busca de prazeres. 

Alguns, acordam um dia, demitidos ou pedindo demissão e resolvem então se conectar. Nesta, vão para o outro extremo tirando períodos sabáticos ou desistindo de tudo e indo para outra vertente em busca da, enfim, felicidade.

Será que precisamos disso? Será que precisamos ir ao limite para percebermos que a virtude está no equilíbrio? Quem disse isso não fui eu, mas Aristóteles nos anos 300 A/C. E ainda não aprendemos, 2.300 anos depois!!!

A pandemia nos trouxe tempo para nos conhecermos melhor. Não é trabalhar demais ou curtir a vida demais, são os dois. Antes disso tudo, é o autoconhecimento, aliado a um projeto de vida consciente, pensado como se pensaria um plano de negócios para a empresa que você trabalha, dirige ou possui. A gente gasta tanto tempo planejando para nossos trabalhos, mas tão pouco para planejarmos nossas vidas nas quais o trabalho faz parte.

A vida tem que ter mais sentido do que o que damos para ela normalmente. O trabalho é apenas uma parte, nossas conquistas tem que ser focadas no sentido do que damos à ela, ao legado que deixamos, sem aqui usar clichês mas falando de forma real, como nossa família lembrará de nós, como nossos amigos se lembrarão de nós, qual diferença estou fazendo, o que estou construindo e, sobretudo, o que estou vivendo e quais experiências e aprendizados poderei levar comigo.

A pandemia foi a prova de fogo para aumentarmos nossa percepção e que antes que queime, em referência ao Burnout, que possamos controlar o fogo. Não pode ser que depois de tudo que vivemos, continuemos a ser iguais, tampouco vale virar 180 graus e fazer loucura. Talvez a pandemia tenha vindo para provar se realmente merecemos ser felizes e o quanto estamos preparamos para isso. Fica a dica.