por Felipe Barroso*


O planeta Terra já deu indícios que está em crise e, para confirmar esse fato, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) publicou um relatório afirmando que o mundo só tem até 2030 para reduzir drasticamente sua dependência de combustíveis fósseis e evitar globalmente o alcance do limiar crucial de 1,5 graus Celsius acima do período pré-níveis industriais, entre 1850 e 1900.

Ondas de calor e frio intensos, enchentes, tempestades e outros acontecimentos climáticos extremos estão ficando cada vez mais comuns no mundo inteiro. Dados da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) mostram que 75% da matriz elétrica no mundo são de fontes não renováveis, isto é, oriundas de derivados de petróleo, carvão, óleo e gás natural – os principais causadores do efeito estufa, que leva ao aquecimento da Terra.

Comparado ao restante do mundo, o Brasil está à frente de todos no uso de energias renováveis na produção de energia elétrica. O motivo está no fato de que 80% da energia elétrica gerada aqui é proveniente de usinas hidrelétricas. Porém, seria uma estratégia positiva se mantivéssemos uma normalidade nas chuvas, que não acontece no Brasil desde 2011 devido às constantes secas. Com a crise hídrica que estamos passando e, para não ocorrer um vasto racionamento de energia como aconteceu em 2001, foi preciso ligar as termelétricas à base de óleo e combustíveis, que além de possuírem alto custo de produção, ainda geram mais emissões de gases e elevam o valor da conta de luz para o consumidor.

Percebemos, ainda, um avanço em relação às outras fontes de energias renováveis, como a eólica, que depende de ventos constantes, a solar, sendo necessário poucos períodos de insolação, e a biomassa, praticamente derivada do bagaço da cana que, apesar de apresentar um volume importante, também pode gerar oscilações devido à entressafra.

Uma saída para elevar o nosso índice de biomassa seria a adoção de termoelétricas com o uso de resíduos, como sofás, madeiras de obras e galhos, entre outros sólidos. Trata-se de um material que aumenta seu volume a cada dia, é pouco utilizado para este fim e tem um aproveitamento de 80%. Considerado como passivo ambiental, um resíduo como um sofá de 100 quilos, por exemplo, quando é descartado em um aterro, ocupa o mesmo lugar que poderia ser descartado uma tonelada de resíduos. E, quando não são descartados em aterros, os resíduos de grandes volumes acabam com destinação final em lugares inapropriados, como o meio da rua, lotes baldios, nos rios e nascentes, o que consequentemente contamina o solo, a água, e ainda atrai ratos e insetos, isto é, todo um conjunto prejudicial à saúde humana e a natureza. Além disso, a possibilidade é alta de que esse lixo acabe sendo queimado por terceiros e, o que poderia ser reaproveitado para gerar energia renovável, volta para a atmosfera em forma de gases poluentes.

Por isso, quando destinados a uma termoelétrica de resíduos, esse mesmo lixo é triturado, transformando-se em um combustível permanente, onde até as cinzas originadas deste processo podem ser aproveitadas para misturar no resíduo de construção civil para fazer, entre outras coisas, o tijolo ecológico.

Para se ter uma ideia, o Brasil produz cerca de 150 mil toneladas por dia de resíduos de grandes volumes, que poderiam gerar 6,4 mil megawatts de energia, ou seja, 3,64% da capacidade instalada brasileira. Considerando o dado da Agência Internacional de Energia, na matriz energética brasileira, o petróleo representa 2% e o carvão e derivados 3,3%. Adotando a energia gerada desses resíduos, seria possível zerar a necessidade de produção a partir de um desses combustíveis fósseis.

Mas, para que aconteçam mais investimentos nessa área, é preciso que o setor privado se movimente e seja alavancado através de bancos de desenvolvimento, como BNDES e outros fundos que financiam projetos em termoelétricas. Enquanto uma hidrelétrica leva até seis anos para ficar pronta, uma termoelétrica de resíduos leva seis meses para tirar licença e um pouco mais de um ano a ser construída, ou seja, são investimentos em estrutura de curto prazo. E o Brasil já conta com projeto que pode ser replicado no mundo inteiro.

Qualquer transformação para reduzir o consumo de combustíveis fósseis é algo a ser feito para ontem. As hidrelétricas ainda serão o principal gerador de energia no Brasil, mas o foco em novos projetos, ideias e investimentos, tanto público como privado, deve priorizar as outras fontes de energias renováveis. A preocupação que parecia ser para o futuro se tornou um problema do presente. Há um caminho. Cabe apenas motivação para transformar o Brasil numa referência mundial em energia renovável.

*Felipe Barroso é diretor-presidente da Transforma Energia, primeira empresa brasileira a desenvolver um projeto que atende em 100% o novo marco regulatório de tratamento e destinação final de resíduos.