Há algum tempo a economia circular vem ganhando espaço e força, e com isso fica cada vez mais evidente para a maior parcela da sociedade a necessidade de tornar cíclico o uso dos recursos naturais. Já não cabe imaginar que o avanço de qualquer sociedade será sustentável se seguirmos um modelo de economia linear onde o ciclo de vida dos produtos se dá através de matéria prima, produção, consumo e eliminação como resíduo.

Dessa forma, nada mais fundamental do que pensarmos no nosso recurso natural mais importante inserido neste contexto. Ninguém duvida que a água é fonte da manutenção da vida e, logo, do desenvolvimento de qualquer sociedade.

Olhar para as projeções globais associadas à água dão a real dimensão da importância do tema e do tamanho do desafio. Alguns dos dados apontados no Relatório Mundial das Nações Unidas sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos de 2019 são:

  • Mais de 2 bilhões de pessoas vivem em países que experimentam estresse hídrico;
  • Cerca de 4 bilhões de pessoas (quase 2/3 da população mundial) vivenciam uma escassez de água grave durante, pelo menos, um mês do ano;
  • Cerca de 90% de todos os desastres naturais são relacionados à água;
  • 5% dos desastres naturais são causados pela seca. Ela afeta 1,1 bilhão de pessoas, matando mais 22 mil e causando US$ 100 bilhões em prejuízos;
  • Mais de 80% das águas residuais, em todo o mundo, retornam ao meio ambiente sem tratamento.

Frente a esse cenário, observamos que o desenvolvimento da gestão dos recursos hídricos com foco em atender o consumo humano, historicamente consolidou como um modelo linear: captação, tratamento de água, consumo, tratamento do esgoto, e descarte.

Isto posto, caracterizado pelo conceito de economia circular, fechar esse ciclo na gestão de recursos hídricos é possível através da prática de reúso de água, o que interrompe o modelo linear de descarte e reintroduz a água, promovendo ganhos econômicos e ambientais.

Essa prática nos permite outra constatação, existe uma qualidade de água mínima associada diretamente a sua aplicação final. De acordo com o relatório de 2019 da ONU, a agricultura é a principal consumidora de água. Corresponde a 69% da retirada anual de água em todo o mundo. Já a indústria, responde por 19%, e as residências particulares por 12%.

Observando esse cenário não é difícil imaginar o impacto positivo que políticas públicas e iniciativas privadas, associadas a práticas de reúso, teriam, já que respondem por quase 90% do consumo. Outro benefício está associado ao maior desafio do saneamento, que é a coleta e tratamento de efluentes, uma vez considerado o reúso o efluente gerado necessariamente vai receber o tratamento mínimo adequado para que possa ser reutilizado.

A água talvez seja o único recurso natural que direta ou indiretamente faz parte de tudo que fazemos. Tente imaginar uma alternativa para substituir este recurso. Tratar a água dentro de um conceito de economia circular não é uma questão de opção, é uma questão de sobrevivência e garantia da continuidade do desenvolvimento de qualquer sociedade.

Particularmente fazer parte do grupo Agenda Urbana, além de um aprendizado constante, é uma oportunidade de me conectar com pessoas muito empenhadas de diversos segmentos da sociedade que buscam construir ações concretas sobre o tema. Link do grupo Agenda Urbana (https://chat.whatsapp.com/CpN4wWzWuCZGbXV8TrtVIs).

Thiago Monteiro é Engenheiro Químico com mestrado em Processos Químicos e Bioquímicos pela UFRJ. Atua há 10 anos na área de meio ambiente onde desenvolve trabalhos de consultoria, projetos e gerenciamento de unidades de tratamento de efluentes, água e reúso.