lancha Tenente Loretti
lancha Tenente Loretti

Cosme Gilmar de Souza, o marinheiro Nininho, de 65 anos, foi preciso nos detalhes, inclusive nas cores, que passou para o artesão Jean Carlo de Almeida, de 50, fazer a obra. Prometida há anos por prefeitos, políticos e empresários, a restauração da centenária lancha Tenente Loretti não passou de promessas. Jean Carlo, contudo, teve muito trabalho, mas concluiu a miniatura da embarcação que, durante anos, transportou presos políticos famosos, resgatou náufragos – entre os quais o empresário Roberto Marinho – e é uma joia histórica da Ilha Grande que está apodrecendo num estaleiro de Angra dos Reis.

Com 67 toneladas e 19 metros de comprimento, a Loretti foi construída pelo Arsenal de Marinha, no Rio, e começou a ser usada para o transporte de presos em 1946. Com o fim do instituto Penal Cândido Mendes, implodido em abril de 1994, a lancha passou a servir à Defesa Civil. Em 12 de março de 1970, com o mestre Constantino Cocotós, a Loretti foi acionada para socorrer três náufragos próximo à Ilha de Jorge Grego, na Baía da Ilha Grande. Um deles era o empresário Roberto Marinho, que estava num barco de apoio do seu iate, o Tamarind. A última missão da lancha foi outro resgate de náufragos perto de Mangaratiba, em 2008.

Praticamente abandonada na Vila do Abraão, na Ilha Grande, e depois no Cais de Santa Luzia, no Centro de Angra, a Loretti foi à pique em março de 2014. Içada poucos dias depois, ela está até hoje no Estaleiro Verolme. A propriedade da embarcação foi transferida da Secretaria de Administração Penitenciária para a Prefeitura de Angra dos Reis, que não levou adiante o projeto lançado pelo antigo mestre Cocotós de transformá-la num museu a céu aberto na Vila do Abrãao.

— Nasci na Ilha Grande e na infância minha diversão era fazer miniaturas de barcos com folha de bananeiras. Nós tínhamos medo da Loretti, pois quando ela se aproximava da praia com a polícia penal era sinal de fuga de presos. Depois, ela passou a ser usadas em resgates de náufragos e ia imponente à frente da procissão de São Sebastião, padroeiro da ilha – contou Jean, que já foi vereador por dois mandatos e autor do projeto-de-lei que deu o nome de Cocotós à Casa de Cultura da Ilha Grande.

Para fazer a miniatura de 17 centímetros, o artesão foi ver a lancha de perto no estaleiro. Como ela passou por várias reformas, ele voltou a Ilha Grande e pediu ajuda ao marinheiro Nininho, sobrinho de Cocotós, que começou a trabalhar na Loretti com 17 anos e só a deixou quando o presídio foi implodido.

– Foi um desafio, mas o Nininho gostava muito da Loretti e me ajudou muito para que eu pudesse reconstituir a lancha exatamente como ela chegou na Ilha Grande. Quem vê a miniatura acha que usei escala, mas fiz tudo no olho mesmo. Quando Nininho viu o trabalho pronto, ele chorou, emocionado – conta Jean, que tem uma lista de interessados em comprar a miniatura, inclusive o prefeito de Angra, Fernando Jordão.
A Loretti não tem mais condições de navegar, mas pode ser recuperada para virar museu.

– Tem até mato no porão e nas cavernas. O convés está podre, mas é possível aproveitar peças de peroba. É preciso refazer o casario e ninguém melhor que o Nininho para ajudar. Senti muito ver aquele patrimônio apodrecendo – lamentou o artesão.

O marinheiro Nininho, que também fazia escolta de presos, está pronto para ajudar e ver realizado o sonho do tio e dos moradores da Ilha Grande:

– Depois do presídio, a Loretii fazia de tudo na ilha. Transportava grávidas, doentes, era usada em salvamentos e nos eventos religiosos. Passsei a maior parte da minha vida nela. É um patrimônio cultural do sistema penal brasileiro e da Ilha Grande que precisa ser restaurado – apelou Nininho.

Novo secretário de Cultura de Angra dos Reis, o jornalista Andrei Lara prometeu se empenhar para transformar a Loretti em museu:

– Vamos agitar esta brilhante ideia – garantiu Lara.