Aproveitando-se da ausência de um banhista, que foi dar um mergulho, uma gaivota atacou o prato de petiscos que ele encomendara a um quiosque da Praia do Peró, em Cabo Frio, no sábado da semana passada. Nos últimos dias, atraídas pelas pessoas que oferecem alimentos na mão, principalmente batatas fritas, as gaivotas mudaram o cenário do trecho urbano da Praia do Peró, onde há maior concentração de banhistas. E passaram a ser protagonistas de uma brincadeira que, segundo especialistas, pode não terminar bem para as aves e para os frequentadores da praia. Os pombos são outra ameaça.

— O garçom do quiosque deu uma corrida e conseguiu salvar parte dos petiscos e afastar as outras gaivotas que já estavam chegando. Virou moda dar alimento com as mãos para as aves e depois postar nas redes sociais – lamentou o comerciante Antonio José Moreira, dono da Sorveteria da Praia, na orla do Peró.

Bióloga marinha, professora e pesquisadora da Universidade Santa Úrsula, Natalie Meurer disse que, assim como no Peró, observou esse mesmo aumento na Baía de Sepetiba, em Itacuruçá, e ouviu relatos do aparecimento de muitas gaivotas, nos últimos dois meses, na Ilhas Cagarras, no Rio. Segundo ela, está na época de reprodução das gaivotas, que fazem seus ninhos nas ilhas e se aproximam da Costa para se alimentar. Ela aconselha os banhistas a não alimentarem as aves:

Banhista estende a mão para alimentar gaivotas na Praia do Peró. Foto de Antonio José Moreira

— O ato de dar batata frita e outros alimentos para as gaivotas pode ser divertido para quem faz, mas há o risco de comprometer, não somem aquele animal, mas também a espécie no futuro. Se elas estiverem na fase de reprodução, vão levar os alimentos, de baixo valor nutricional, para os filhotes e é bem provável que eles nem cheguem à idade juvenil – alerta a bióloga.

Natalie Meurer, que leva seus alunos para estudos na Costa do Peró, acredita que o número de gaivotas vai diminuir após o período de reprodução.

— As gaivotas são super generalistas e comem qualquer coisa. Dar alimentos na mão também pode ser perigoso.  Elas aprendem por observação e isso pode causar acidentes, principalmente com crianças e idosos, mesmo com aqueles que não estão oferecendo comida. É preciso que se façam campanhas para orientar as pessoas a não dar alimentos às gaivotas e também aos pombos, que também são animais que se aproximam do ser humano e estão na fase de reprodução – concluiu.

A colocação de placas de advertência e mobilização de agentes ambientais para orientar os banhistas são sugestões do biólogo e ambientalista Paulo Bidegain para evitar que as pessoas continuem alimentando as gaivotas e pombos na Praia do Peró, única praia no interior fluminense que possui a Bandeira Azul. Ele recorda o dia em que uma gaivota atacou sua filha quando ela comia batata frita numa praça próxima aos lagos no Centro de Toronto, no Canadá.

— Isso pode não acabar bem. Com alimento errado e abundante, o problema só tende a se agravar. As gaivotas se alimentam de peixes, mas vão se sentir confiantes com a comida fácil, não vão mais sair dali e começarão a atacar as crianças. Com os pombos a situação é mais grave, pois ele transmite doenças. Proliferam também com restos de comida que os banhistas deixam na areia da praia – advertiu o biólogo.

Moradores e integrantes dos movimentos Amigos do Peró e Ondas do Peró estão fazendo campanhas pelas redes sociais para que os banhistas não alimentem as gaivotas.

— Qual a dificuldade de entender que batatas fritas, amendoins, restos de frango e biscoitos são prejudiciais para as gaivotas? Se tiverem um pouco de paciência, os banhistas podem tirar fotos lindas perto delas sem que para isso precisem intoxicá-las – comentou Cláudia Ahrends, moradora do Peró.

Nas cidades turísticas do litoral da Inglaterra, as pessoas que alimentam gaivotas estão sujeitas a pagamento de multa equivalente a cerca de R$ 300,00. A medida foi tomada depois dos ataques das aves a idosos.