São Paulo, SP 14/5/2020 – É fundamental usar a informação e a educação para moldar novos hábitos. Isso pode trazer muitos benefícios para saúde, segurança e qualidade de vida das pessoas

Para especialista, país terá que investir em alternativas para a circulação de pessoas, integrando mais áreas verdes às cidades; expandir a infraestrutura de telecomunicações para garantir acesso à internet de qualidade para toda a população; melhorar os sistemas de logística; modernizar as políticas de mobilidade urbana e adaptar legislações, inclusive trabalhistas.

Os órgãos estaduais de medição da qualidade atmosférica têm divulgado reduções significativas da poluição nas últimas semanas. Grandes capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba (PR) e Belo Horizonte (MG) apresentaram quedas de até 70% na quantidade de poluentes presentes no ar, mostrando como o isolamento social decorrente do novo coronavírus (Covid-19) gerou mudanças importantes nos hábitos dos brasileiros.

Para André Ferretti, gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e mestre em ciências florestais, essa nova realidade mostra que o país tem condições de adotar um estilo de vida mais sustentável e que respeite os limites da natureza. 

“Depois dessa crise, as empresas precisarão reduzir custos e vão usar as lições aprendidas nesse período para cortar despesas e, ao mesmo tempo, gerar benefícios ambientais. Estamos vendo que as pessoas estão conseguindo realizar muitas das atividades que antes eram feitas nas ruas, em deslocamentos e viagens, agora de maneira online. Palestras, cursos, reuniões, vendas… E tecnologias estão sendo aprimoradas e desenvolvidas para isso”, diz Ferretti, que também é membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN).

Ele aponta, porém, que essa mudança só ocorrerá se o Brasil investir em informação e educação ambiental. “É fundamental usar a informação e a educação para moldar esses novos hábitos. Isso pode trazer muitos benefícios para a saúde, segurança e qualidade de vida das pessoas. O Brasil vai ter que alterar protocolos e leis para estimular essas novas mudanças, investindo em alternativas para a circulação de pessoas, integrando mais áreas verdes às cidades, expandindo a infraestrutura de telecomunicações para garantir acesso à internet de qualidade para toda a população, melhorando os sistemas de logística, modernizando as políticas de mobilidade urbana e adaptando legislações, inclusive trabalhistas, que favoreçam o home office e outras atividades afins”.

Ferretti lembra que cerca de sete milhões de pessoas morrem todos os anos em decorrência da poluição atmosférica, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). A entidade também estima que nove em cada dez pessoas no planeta respiram ar poluído. 

“Essa nova dinâmica social surgiu em decorrência de uma crise, mas nos mostrou que é possível adotar hábitos produtivos sem a degradação do meio ambiente. Esse é o momento ideal para começarmos a adotar políticas públicas que nos levem no caminho da sustentabilidade”, diz o especialista.  

As cenas de isolamento social levantaram discussões em torno das políticas públicas ambientais em todo o mundo. Apenas na China – maior emissora de gases poluentes do planeta – houve redução de 25% na emissão de dióxido de carbono (CO2) nas quatro semanas de fevereiro em razão das medidas para conter o coronavírus, segundo um estudo do site especializado CarbonBrief. 

De acordo com o Ministério da China, a média de dias com boa qualidade de ar no país foi 21,5% maior em fevereiro deste ano do que no mesmo período do ano passado. Ações como redução parcial ou total das frotas de ônibus, interrupção de voos comerciais e menor circulação de carros foram as grandes responsáveis por esses números. 

Para o pesquisador Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP) e também membro da RECN, o episódio deixa a lição de que os governos podem e precisam colocar em prática políticas públicas de redução de emissão de gases do efeito estufa. 

“É necessário investir em matrizes de energia limpa e na proteção dos recursos naturais para que o planeta não sofra com o aumento repentino de emissões que ocorrerá quando a crise acabar, assim como foi em 2008”, diz.

Uma estimativa publicada na revista Nature apontou que, em 2010, logo após a recessão global de 2008-09, as emissões de CO2 por combustíveis fósseis subiram um recorde de 5,9%, superando a queda de 1,4% registrada no ano anterior em razão do colapso financeiro.

No entendimento de Nobre, no entanto, mais do que se preocupar com as políticas de emissão, o Brasil precisa ficar de olho na pressão que será exercida por alguns setores econômicos.

“Diferentemente do resto do mundo, as emissões brasileiras são causadas principalmente pelo desmatamento e pela agropecuária. E essa discussão é relevante porque já estávamos num ataque sem tréguas às políticas ambientais. Tenho certeza de que os setores que querem derrubar a trajetória de sustentabilidade do País vão pegar carona no coronavírus, com a desculpa de que a recessão vai derrubar a economia”, alerta Nobre, doutor em meteorologia pelo MIT.

“Esse episódio nos ensina que a economia de baixo carbono é o caminho a ser seguido para que o Brasil esteja preparado para situações de crise e para que não regressemos ao século 18”, complementa.

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