Taiana Jung e Rui Marcos
Taiana Jung e Rui Marcos / foto:Pedro Costa

Para o filósofo francês Henri Lefebvre, a cidade pode ser entendida como “uma projeção da sociedade sobre um local”. Decompondo essa afirmação, a cidade pode ser compreendida como o lugar do movimento, onde nós coabitamos com as diferenças – e, por isso, aprendemos a aprender, a viver, a se relacionar com os outros, a criar mecanismos de sobrevivência. Já dizia o geógrafo Milton Santos que a cidade é o lugar da educação. A nossa maior expressão de escola, onde o aprender se faz na prática.

A construção dos espaços urbanos brasileiro e a relação com a pandemia COVID-19 provoca uma reflexão sobre como as fronteiras sociais e físicas estão sendo quebradas pelo vírus que é invisível e pode se fazer presente em qualquer lugar, atingindo qualquer classe social. No entanto, as suas consequências têm exacerbado a vulnerabilidade dos espaços da pobreza, das desigualdades e das reais dificuldades que as distintas classes sociais estão passando para lidarem com um novo modelo de uso e produção da cidade.

As crises atuais nos mostram que as cidades brasileiras estão mais expostas e vulneráveis a problemas relacionados com a saúde pública, as poluições, as violências, a intolerância à diversidade, a compreensão de coletividade, entre outras. Sendo assim, a seguinte questão é posta para as diferentes instâncias: como podemos repensar o novo modelo de cidade? Como diminuir ou evitar o surgimento de cenários de incertezas e práticas ineficazes?

Ao longo da história, as sociedades construíram cidades focadas em atenderem as necessidades da economia, sejam as cidades da idade média, como lugares para a circulação de mercadorias e divisão do trabalho; cidades imperiais com centro do poder e expansionismo comercial, como no século XX; e as cidades industriais com aglomeração de mão de obra e locus de produção. No século XXI, um “novo urbano” se estabelece – ligado por um sistema em rede de comunicação, transporte, produção e relação social.

E fica evidente que, em diferentes países, inclusive no Brasil, as cidades possuem baixa resiliência social, ou seja, nesse novo urbano, não foi levado em consideração elevar a capacidade das comunidades, bairros e municípios para lidarem com tensões, forças adversas e mudanças drásticas tanto em uma perspectiva ambiental, socioemocional, material ou biológica. O capital econômico continua a sobrepor e aumentar a desigualdade, que agora também é tecnológica.

Trazendo a relação dessa contextualização com o COVID-19, e falando de forma prática, surge como desafio (re)pensar as cidades levando em consideração a capacidade de adaptação da sociedade frente a cenários ou forças negativas. Mas para que isso ocorra, o modelo de produção e as relações de trabalho necessitam ser profundamente revisitados.

O acesso a oportunidades ou o uso dos espaços deve ser democratizado, deve-se propor estruturas ou modelos alternativos aos atuais. A proteção a sociedade perpassa por um novo modelo de mobilidade urbana, focado na sustentabilidade, menor produção de gás de efeito estufa, tempo de deslocamento e com foco na multimodalidade. Na área educacional, pode-se incluir nos currículos temas voltados para valorização do ensino de Ciências e a desmistificação do “mundo invisível”, além de maior relação e vivências nos espaços urbanos.

Lidar com um inimigo “invisível” e “abstrato”, como um vírus, é um dos maiores desafios atuais. A construção civil deve repensar materiais, construção de imóveis com menor custo e melhor qualidade, principalmente voltado para os espaços populares. O segmento seguro pode criar estratégias de popularização dos produtos com foco no uso e não do patrimônio. A ampliação do saneamento básico; melhoria da limpeza e da coleta seletiva dos resíduos; e valorização da medicina familiar e comunitária são exemplos a serem seguidos para construção de uma cidade capaz de proteger e salvaguardar a sociedade das diferentes intemperes. Além dos citados, existem tantos outros que merecem atenção e devem ser aprofundados.

A humanidade não pode ter uma visão míope e pessimista sobre a pandemia COVID-19. Temos que começar a criar pensamentos positivos em relação aos nossos desejos e necessidades, bem como pressões sociais que sejam capazes de alterar políticas e modelos de produção econômica.

Sobre os autores

Taiana Jung – Gestora Técnica da Logos Consultoria

Atua há mais de 15 anos nas áreas de planejamento estratégico, pesquisa, formação e avaliação. Possui larga experiência em facilitação e mediação de eventos e formações. É Mestre em Estudos Populacionais e Pesquisa Social (ENCE/IBGE), Personal Coach (Sociedade Brasileira de Coaching), Mediadora de conflitos (Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro), Especialista em Organização Espacial do Rio de Janeiro e Licenciada em Geografia (UFF). No setor público, foi chefe do Centro Social da Fundação Leão XIII. Na área acadêmica, já atuou como Professora no curso de graduação em Geografia (UERJ-FFP) e como Pesquisadora convidada do Departamento de Endemias (ENSP/Fiocruz). Compõe o grupo de orientadores do CIEDS. Atualmente, é gestora do Grupo de mulheres “Somos Empreendedoras”, com mais de 160 participantes em Niterói. Desde 2008, é sócia gerente da Logos Consultoria, na qual exerce a função de diretora técnica.

Rui Marcos – Gestor Administrativo-Financeiro da Logos Consultoria

Possui 20 anos de experiência nas áreas de educação e ensino, planejamento com ênfase em ordenamento territorial urbano e ambiental. Conhecimentos sólidos em gestão e planejamento estratégico. É Mestre em Engenharia de Transportes (COPPE-UFRJ). Especialista em Gestão e Planejamento Ambiental (UVA). Graduado em Geografia (UFF) e Administração (UCAM). Na área de planejamento urbano foi chefe do departamento de urbanismo da Prefeitura de Niterói-RJ, sendo gestor de equipe e responsável por projetos de gestão ambiental e delimitação de áreas de preservação. No campo acadêmico foi professor da pós-graduação no Curso de Especialização em Gestão, Planejamento e Licenciamento Ambiental da Universidade Salgado de Oliveira/Niterói-RJ. Desde 2008, é sócio da Logos Consultoria, atua como diretor administrativo e implementou o modelo de gestão da empresa.