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São Sepé (RS) entrou para o calendário das mobilizações globais desta sexta-feira após declarar emergência climática e se comprometer com a transição energética

Na agenda das Marchas Globais pelo Clima, evento que reuniu milhares de jovens em todo o mundo, nesta sexta-feira (24), uma pequena cidade gaúcha chamou atenção. Com cerca de 23 mil habitantes, São Sepé foi o menor município brasileiro a contar com uma manifestação desse tipo.

Organizada pelo grupo de jovens ativistas Eco pelo Futuro, em conjunto com a Prefeitura, o Movimento São Sepé Sustentável e a ONG de campanhas globais 350.org, a mobilização atraiu ativistas de vários pontos do estado, que optaram por se concentrar em São Sepé para enviar um recado anticarvão e pró-clima aos políticos gaúchos.

“O tema das marchas este ano foi ‘descolonize o sistema’, e a gente vê que ainda há governantes que acreditam na lógica colonial de extrair o carvão, exportar tudo e deixar para a comunidade só os problemas de saúde e as migalhas do lucro das mineradoras. Como jovens gaúchos, estamos defendendo uma lógica diferente para o estado, de geração de oportunidades sustentáveis e ganhos para todos”, explica Renata Padilha, do Eco pelo Futuro.

Opção pela nova economia

A participação no clube global de cidades que atuam pelo clima não é novidade para São Sepé. Em 5 de junho deste ano, o município tornou-se o segundo do Brasil e o primeiro da Região Sul a reconhecer a emergência climática , com apoio técnico da 350.org.

A declaração de emergência se deu por um decreto da Prefeitura, que estabeleceu o compromisso municipal de promover a transição para uma economia livre de combustíveis fósseis e o investimento em mitigação e adaptação às mudanças do clima.

Tanto o decreto quanto a Marcha pelo Clima ganham ainda mais destaque por marcarem uma oposição declarada à tradicional escolha de municípios do interior gaúcho pelo incentivo à atividade carvoeira.

“Passou da hora de o Sul do Brasil investir seriamente em uma transição para as economias do futuro. Não dá para continuarmos apostando em uma energia do século 18, que já provocou tantos danos às pessoas mais vulneráveis, enquanto o mundo corre para desenvolver energias limpas, turismo de base comunitária, agricultura sustentável e uma série de outras soluções”, afirma o prefeito de São Sepé, João Luiz Vargas (PDT).

Setor sem futuro

Organizações locais também já obtiveram conquistas ambientais importantes. O Movimento São Sepé Sustentável, composto por moradores que vivem, em sua maioria, da agricultura familiar, está contribuindo para evitar a instalação de uma mina de carvão próxima ao ponto de captação da água usada no município.

Enquanto isso, a sul e a leste de São Sepé, polos de extração do carvão seguem funcionando, e ainda é comum que prefeitos dessas regiões defendam empresas de mineração em discursos e entrevistas, apesar da sequência de notícias que indicam a decadência do setor.

O revés mais recente foi o anúncio do governo chinês, na Assembleia Geral da ONU, nesta semana, de que a China, o maior financiador de projetos de expansão do carvão em países em desenvolvimento, cortará os recursos destinados a esse tipo de operação.

“Em um cenário global totalmente desfavorável ao carvão, a Marcha pelo Clima em São Sepé serviu para mostrar que é crescente a parcela da população gaúcha que apoia a desvinculação do estado dessa indústria ultrapassada e nociva”, explicou Renan Andrade, organizador de campanhas da 350.org.

Além de São Sepé, houve marchas pelo clima em pelo menos 25 cidades brasileiras, incluindo capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Aracaju, Fortaleza e Belém, e cidades do interior, como Uberlândia (MG), Altamira (PA) e Pacajá (PA), Caicó (RN) e Teresópolis (RJ). As mobilizações foram organizadas pelo Fridays for Future e outros coletivos jovens. No mundo todo, foram registradas ações pelo clima em mais de 1300 locais.