Realizado por Walter Belik, da Unicamp, em parceria com Imaflora e apoio do Instituto Ibirapitanga e Instituto Clima e Sociedade, relatório analisa dados como comportamento alimentar familiar e produção agropecuária, contribuindo para um olhar sistêmico do setor

As despesas com alimentação das famílias mais ricas é 165,5% maior do que a renda total das famílias mais pobres. Esse é um dos resultados do “Estudo sobre a cadeia de alimentos”, realizado por Walter Belik, com o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), e apoiado pelo Instituto Ibirapitanga e Instituto Clima e Sociedade. O relatório traz informações inéditas sobre o sistema alimentar brasileiro e contribui para um olhar sistêmico sobre alimentação no país.

Em um documento síntese, chamado “Um retrato do sistema alimentar brasileiro e suas contradições”, estão os principais achados do estudo, organizados em 10 pontos, incluindo dados recém-lançados do IBGE e da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA). O lançamento dos documentos acontece em meio aos recentes debates sobre a revisão do Guia Alimentar para a População Brasileira. “Esse estudo tem como objetivo analisar em profundidade o sistema alimentar, por meio da observação do momento atual brasileiro e das tendências nas estruturas de produção, consumo, distribuição e comercialização de alimentos. Com essa análise, conseguimos compreender melhor pontos mais precários que demandam priorização de políticas públicas no setor”, explica Vinicius Guidotti de Faria, coordenador de Geoprocessamento do Imaflora.

“O estudo trabalhou com dados oficiais e de associações, no sentido de compor um olhar geral sobre o sistema alimentar no Brasil, para trazer informações atualizadas para políticas públicas no sentido de reverter esse quadro tão perverso que vivemos hoje”, diz o autor Walter Belik.

Dentre os principais pontos levantados pelo relatório, está a análise do comportamento alimentar de acordo com o poder aquisitivo da família brasileira. Enquanto nas famílias mais ricas o gasto médio mensal com alimentação representa apenas 5% da renda total, entre as famílias mais pobres a comida tem um peso enorme: mais de um quarto (26%) da renda mensal é direcionada à alimentação. O estudo revela ainda que, quando a renda familiar aumenta, o consumo de arroz e feijão diminui e o da carne sobe.

Outro resultado encontrado é que, entre as famílias mais ricas, metade dos gastos com a alimentação vai para pagar a conta em restaurantes e lanchonetes. Já entre as famílias mais pobres, o gasto com refeições e lanches fora de casa equivale a 20% do gasto total com alimentação. Além disso, o significado de comer fora é diferente para as duas situações financeiras: enquanto para as famílias mais ricas comer fora representa lazer, para as de renda mais baixa significa uma necessidade, pois elas dependem de alimentação escolar e refeições coletivas nos locais de trabalho.

No momento em que a pandemia faz emergir diversas iniciativas de doação de alimentos e, ainda, que o Programa Mundial de Alimentos (PMA) das Nações Unidas recebe o prêmio Nobel da Paz, o documento traz análise de dados da EBIA, que apontam que 84,8 milhões de brasileiros têm algum grau de insegurança alimentar. Ainda, os recursos de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, são mais significativos (representando 25,7% do total da renda) nas famílias com insegurança alimentar grave. Ou seja, embora contribua para a renda familiar, os recursos dos programas ainda são insuficientes para garantir alimentação saudável e adequada para grande parte da população. Nesse sentido, os dados do estudo podem proporcionar reflexão sobre o papel das políticas públicas e da doação de alimentos no combate à fome.

PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA

O estudo também faz uma análise do setor agropecuário. Como um dos principais produtores mundiais de carnes, açúcar, laranja, soja e café, o Brasil tem um papel fundamental como exportador de produtos agropecuários. Ao mesmo tempo, tem o maior mercado interno mundial de alimentos e bebidas. Grande parte da produção do país é consumida internamente. A estimativa é de que apenas 10% da produção agropecuária brasileira tem como destino a exportação. Em relação à carne bovina, o mercado interno é quase quatro vezes maior que o externo. Somente cerca de 20% é exportado para outros países.

Além disso, a produção de alimentos no Brasil é regionalizada, limitando sua variedade. A região Centro-Oeste é a principal produtora de grãos e oleaginosas, somando 46,2% da produção brasileira. E o café do Brasil é praticamente todo produzido no Sudeste, com 95% da produção concentrada nesta região. Isso faz com que a logística de produção, beneficiamento e distribuição do sistema alimentar fique mais cara e dificulte o acesso à variedade de alimentos.

“O estudo pretende contribuir para uma melhor compreensão do sistema alimentar brasileiro, buscando conectar dimensões de produção, distribuição e consumo. A apresentação das conclusões da pesquisa em um documento síntese tem intuito de estimular a comunicação e o debate”, finaliza André Degenszajn, diretor-presidente do Instituto Ibirapitanga.

Veja o “Estudo sobre a cadeia de alimentos” na íntegra.
Veja a síntese “Um retrato do sistema alimentar brasileiro e suas contradições”.