Gustavo Carrer*

Há pelo menos meia década, leitores atentos perceberam que os meios de comunicação tradicionais e as mídias sociais vivem um verdadeiro embate de narrativas ao abordar um mesmo tema ou fato. A profusão de explicações e pontos de vistas, quando bem utilizados, nos fazem refletir, aprofundam e enriquecem o entendimento sobre os fatos.

Recentemente, ouvi um conhecido economista desenvolvendo uma narrativa interessante sobre o que desencadeou o surgimento do Uber e do Airbnb. O principal objetivo dessa explicação era dizer que essas inovadoras empresas surgiram, em grande medida, pela crise de 2008 e que certamente a atual crise do covid-19 geraria inovações e empresas tão incríveis quanto elas.

Eu concordo apenas em parte com essa interpretação. Sem dúvida a crise de 2008 contribuiu para o sucesso tanto do Airbnb quanto do Uber, mas ela sozinha não explicaria a origem dessas companhias.

O transporte urbano sempre foi um desafio para o Estado, que ao longo dos anos tentou organizar o setor utilizando mecanismos regulatórios, que infelizmente geraram protecionismo. Historicamente, sabemos que todo protecionismo acaba por gerar ineficiências e o custo delas é, inevitavelmente, repassado ao cidadão, gerando uma importante assimetria no mercado.

Assimetrias tendem a ser corrigidas pelo próprio mercado: muito antes de surgir o Uber já existiam táxis e vans clandestinas em praticamente todos os grandes centros, por outro lado, nas cidades pequenas, os mototáxis ocupavam esse espaço. O Uber teve capacidade de eliminar as principais barreiras do transporte alternativo com confiabilidade, facilidade de contratação, transparência na definição do valor, simplicidade e conveniência na forma de pagamento.

Ao fazer muito bem tudo isso, e ainda oferecer uma fonte de renda para um exército de desempregados (potencializado pela crise de 2008), o Uber atacou de verdade a imensa assimetria do mercado de transporte urbano e assim ganhou escala mundial.

Alugar apartamentos, casas ou apenas quartos por temporada é uma demanda conhecida e muito antiga. Seja para estudar, trabalhar ou simplesmente por lazer, a hospedagem alternativa e informal sempre coexistiu com os hotéis.

Assim como na contratação do transporte alternativo, as principais barreiras para que esse mercado ganhasse maior escala e relevância, eram a credibilidade das informações divulgadas pelos proprietários e meios de pagamento mais seguros.

Em geral o pagamento era antecipado ou na entrada do imóvel, o que não trazia segurança para nenhum dos lados: o cliente podia sofrer com fraudes ou por informações incorretas sobre o que estava alugando, por outro lado, o locador podia receber um calote ou ainda ter que arcar com danos no imóvel.

O Airbnb resolveu essas questões, com um sistema de qualificação e avaliação dos imóveis, locadores e locatários bastante eficiente e transparente, além de intermediar as transações financeiras, o que garante pagamentos e recebimentos conforme regras bem claras. Em outras palavras, o Airbnb tornou-se um agente de intermediação e garantia de informações e transações do mercado de hospedagem, ajustando as assimetrias nesse mercado, reduzindo riscos.

Embora a crise de 2008 tenha dado um impulso às duas empresas, algumas condições de base foram de fato fundamentais para o surgimento e sucesso delas: demanda reprimida por serviços de transporte e hospedagem; elevada ociosidade de imóveis e veículos; abundância de mão de obra (desemprego sistêmico); mecanismos de avaliação dos usuários para construir credibilidade e confiança e meios de pagamento modernos e seguros.

Assim, entendo que o surgimento dessas empresas é fruto da combinação de tecnologias que amadureceram e se popularizaram somente nos últimos anos com a correção de grandes assimetrias de mercado, criadas ao longo de muitas décadas.

A atual crise do coronavírus sozinha provavelmente não será capaz de criar as condições necessárias para transformações tão profundas no mercado, mas não há dúvidas de que será uma grande catalizadora para o sucesso de muitos empreendedores visionários.

*É gerente de Desenvolvimento de Negócios da Gunnebo