Mais humanizados, conectados e engajados: como será nossa sociedade pós-pandemia?

Beto Marcelino
Beto Marcelino

Quando 2020 começou, ninguém imaginava que este seria o ano em que uma doença que surgiu na China no final do ano anterior se tornaria uma pandemia mundial, tornando realidade expressões como quarentena, isolamento social e toque de recolher na vida de cada cidadão pelo mundo.

Mais do que isso: a sensação é a de que tudo aconteceu muito rápido. Entre o final de fevereiro e o início de abril, todos os maiores eventos pelo globo foram cancelados, incluindo as Olimpíadas de Tóquio (adiadas para 2021), exemplo máximo de que o mundo está em “stand by” até segunda ordem. Salvo em anos de guerras mundiais, os Jogos Olímpicos jamais haviam sido cancelados…

Nós tivemos que adiar o Smart City Expo Curitiba 2020, a terceira edição do maior evento brasileiro sobre cidades inteligentes, que realizamos desde 2018.

Estamos sendo forçados, uns mais, outros menos, dependendo da área de atuação profissional, a repensar cada relação humana, familiar e de trabalho que temos em nossas vidas. Quais serão os efeitos pós-pandemia para a nossa sociedade?

Alguns sinais já estão claros, bem como o exemplo dos países que começam a “ver a luz no fim do túnel”, com a queda no número de casos de Covid-19 e a retomada gradual das atividades econômicas. A tendência é que a Ásia se normalize primeiro, seguida da Europa, Oceania e dos países americanos. Já a África foi o último continente onde a doença chegou e ainda é uma grande incógnita.

Ao olhar para além desta crise, vejo que emergiremos dela diferentes.

Seremos mais humanizados. Nunca valorizamos tanto o contato físico e presencial, pela falta de abraçar as pessoas queridas. Imagino que você também esteja falando mais com seus familiares agora, à distância, não está? Acrescente-se a isso o sentimento de solidariedade e empatia global, que leva voluntários a ajudarem os menos favorecidos com doação de mantimentos, além das máscaras, luvas e aventais doados aos hospitais e profissionais da saúde.

Seremos mais conectados. Reuniões se transformaram em calls e videoconferências. O que antes levava horas agora é resolvido em minutos. Nossa atenção aumentou no ambiente de trabalho domiciliar, bem como a produtividade das empresas. Muitas já estão avaliando se será preciso gastar com aluguel e custos de uma sede física, a partir de cada área de atuação. A digitalização é cada vez mais irreversível, e quem não investir nas ferramentas necessárias vai ficar para trás no mercado.

Seremos mais engajados. A sociedade está atenta aos cuidados de higiene pessoal e coletiva – práticas milenares na cultura japonesa, que talvez expliquem as razões da baixa contaminação por lá. Estamos atentos também aos aspectos cidadãos e sociais de cada medida que nossos governantes estão tomando em tempos de crise.

Somem-se a isso os avanços tecnológicos, a telemedicina, os cursos à distância, o trânsito reduzido, o meio ambiente mais preservado, a diminuição no número de crimes e acidentes… Se formos olhar para os aspectos positivos, teremos muito a aproveitar quando a pandemia acabar.

Humanizados, conectados e engajados: estas são as características dos cidadãos das cidades inteligentes. Longe do conceito que alguns podem imaginar de “cidade dos Jetsons”, em que a tecnologia é o fator dominante, as smart cities pelo mundo são aquelas que engajam sua população em todas as atividades municipais, dos serviços públicos até a participação política, social, cultural e de voluntariado.

Nos dias em que seria realizada a terceira edição do Smart City Expo Curitiba, nós do iCities realizamos uma Maratona de Lives com alguns dos especialistas em cidades inteligentes que estariam presencialmente conosco. Suas análises sobre segmentos como governança e soluções inovadoras foram amplamente difundidas em transmissões gratuitas e abertas, nas redes sociais.

Diretor de inovação do Instituto de Tecnologia de São Caetano do Sul (SP), Marcos Batista foi bastante feliz na definição de que “nossas cidades serão conhecidas por seus tamanhos, pelos problemas que resolvem, transformações que promovem e esperanças que recuperam”. E mais: “inovação é criar um propósito bem definido e uma conexão emocional”. Sem criar empatia e propósito com o cidadão, as cidades perdem sua função elementar.

Outro especialista parceiro do iCities, Josep Piqué é um dos idealizadores do 22@Barcelona, distrito de inovação que virou case mundial de transformação urbana. Piqué cunhou a expressão de que todos nós viveremos um estado de “new normal” após a pandemia, com o aprendizado mundial sendo compartilhado em uma sociedade muito mais “smart”.

Nossos votos e empenhos estarão focados em ajudar a tornar esse “new normal” cada vez mais humano, conectado, engajado e smart – ao alcance de todos.

*Beto Marcelino é engenheiro agrônomo e sócio-diretor de Novos Negócios do iCities, empresa que organiza o Smart City Expo Curitiba, maior evento do Brasil sobre cidades inteligentes, com a chancela da FIRA Barcelona