Não fazem muitos dias e ainda estávamos no final de 2019, fazendo planos para 2020… Festas, fogos… frivolidades… mas, também, sonhos!!!

E o que sonhávamos?

Mais conquistas financeiras. Melhores oportunidades de trabalho. Aumentar a renda familiar. Comprar isto ou aquilo; isto e aquilo… Novos amores ou reforço nas relações já existentes… e a lista se sucedia… cresciam com pedidos de mais coisas; quase não nos dávamos conta da importância das pessoas.

Aliás, das pessoas queríamos o número ou canal de acesso a uma rede social. Queríamos a conexão, mas não a relação… a não ser que a relação fosse virtual… (virtual, de virtus, do latim, que significa algo relacionado com força; mas queríamos a força do canal e não uma relação pessoal forte). Nisso residia o fato!

Qual fato?

O fato é que nessa altura das nossas relações, já estávamos isolados… cada um no seu mundo de teclas ou de tela sensível ao toque. Nem nos namoros o toque estava tendo espaço, perdendo para a tela fria. Não poucas vezes vi casais, lado a lado, em vez de trocarem beijos e abraços, cada um tocava a sua tela insensível… e eu, a observar, me dizendo: numa relação a dois existem coisas melhores de serem tocadas, apertadas, acariciadas… numa relação a dois tem algo muito melhor a se fazer…….

O fato é que o ano começou. Os sonhos foram se assentando na poeira do tempo e a realidade se impondo. E as notícias de um país distante com um problema sério(?) mal chamavam nossa atenção. Era do outro lado do mundo!!! Mas as informações nos chegavam pelas telas e jornais.

O fato cresceu. Multiplicou-se. Alastrou-se. Aproximou-se. Chegou ao nosso quintal. Instalou-se e está aí. E o fato, notícia da China, não era mais só negócio da China. Era o medo se instalando. Era o medo já instalado. E alastrado pelas telas e teclados. Mas ai já era somente coisa das elites.

O fato trouxe incertezas. Trouxe discussões e divergências. Muitos tinham muito a dizer, mas poucos atinavam, exatamente, sobre o que era essa ameaça. E o medo se alastrou, muito mais rapidamente que o vírus temido. E algumas máscaras começaram a cair. E as pessoas instaladas em seu mundo, individualista e individualizado, sentiram que algo diferente (terrível) pairava no ar ameaçadoramente! Algo, não só grandioso, mas principalmente fora de controle, havia se instalado. E os dedos, mais do que o cérebro, buscavam informações nas telas. Mas a rede não apresentava a certeza buscada! Ampliava as incertezas. E alguém resolveu andar na contramão dos fatos. Alguém que, iludindo uma minoria, se fez um presidente que mente.

O fato e o fake apareceram em informações desencontradas, contraditórias; notícias falsas ganharam mais atenção que as supostas verdades… ambas alarmantes! O mundo estava enfermo. Fica em casa. Vai pra rua! Fica em casa ou vai pra rua? A ciência diz fica. A arrogância, na forma de uma marionete do capital diz vai… A sapiência recomenda prudência, pois a incerteza é maior que os interesses empresariais.

O fato das notícias de mortes do outro lado do mundo, não nos afligia, eram só notícias. Trágicas, mas só notícias, como outras tantas de tantas tragédias, que lamentávamos, mas não nos diziam respeito. Mas as mortes começaram a dançar não só no outro lado do mundo, mas também nos quintais dos vizinhos. E entrou pela porta das elites e invadiu nosso quintal.

O fato é que ela chegou. Inicialmente coisa das elites. Mas assustou as periferias. Se não havia hospitais para as elites qual vai ser o impacto no chão do povo? E o medo produziu o isolamento. E as pessoas, abraçadas com seus aparelhos de comunicação que gerou distanciamento, descobriram a necessidade do outro; e o aparelhinho maldito ganhou nova finalidade: buscar notícias; enviar mensagem de otimismo.

O fato é que até as igrejas se esvaziaram. Mas as preces se irmanaram. De uma lado a prece da ciência: enquanto manipula as pipetas, o microscópio, os reagentes e outros aparelhos, pede ao Onipotente que lhe ilumine as buscas. A sapiência da ciência também é dom do Espírito. Do outro lado a prece que se desenvolveu do medo e da esperança popular. E as preces do povo dizem e pedem para que as autoridades deixem as picuinhas e seus interesses pessoais e se concentrem no interesse do povo; para que o presidente desça de seu ego maldito, deixe de ser lacaio dos empresários e banqueiros e olhe para os interesses e necessidades do povo; para que os veículos de comunicação e notícia deixem de atender aos seus interesses publicitários prendendo a atenção do povo com notícias sensacionalistas e se concentrem em dizer e divulgar verdades; para que os legisladores deixem o medo do presidente e façam algo pra colocar o Brasil nos trilhos, na direção das necessidades do povo.

E agora que o vírus começa a descer das elites e a fome começa a se instalar, o povo quer saber a quem recorrer?

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Neri de Paula Carneiro
Neri de Paula CARNEIRO - Mestre em Educação UFMS (2008); especialista em metodologia do ensino superior, UNESC-RO (2002); licenciado em história pela Universidade Federal de Rondônia (1999); bacharel em Teologia pela Instituto Teológico de Santa Catarina (1989) graduado em Filosofia - Seminário Arquidiocesano Instituto Paulo VI - Londrina (PR) (1984). Professor concursado do Estado de Rondônia. Tem experiência no magistério desde 1992, como professor de ensino médio e superior, atuando nas áreas de Filosofia, História e Educação. Atua como colunista semanal em jornais regionais. Produtor e apresentador de programa radiofônico. Desenvolve atividades voluntárias ligadas à Igreja Católica, em Rolim de Moura-RO.