O preço do carnaval

O preço do carnaval
O preço do carnaval / foto: pexels

Com toda essa situação, me pergunto: até quando optaremos por soluções de curto prazo?

Sabíamos da evolução da pandemia há um mês atrás. Sabíamos também da grande quantidade de turistas internacionais que chegam ao Brasil para o carnaval. E óbvio que, como todo pós carnaval no Brasil, algum vírus se espalharia. Dessa vez não foi diferente, abrimos as portas pro corona vírus.

A previsão de faturamento pro comércio, com o carnaval de 2020, estava em torno de 900 milhões de reais (https://www.fecomercio.com.br/noticia/carnaval-2020-deve-impulsionar-economia-com-r-906-milhoes). A decisão imediata foi manter o carnaval e receber este dinheiro. E não venha me dizer que ninguém pensou nisso ou seria mais assustador ainda. Mas e agora? Quanto o comércio está perdendo? Certamente, muito mais.

Os nossos líderes políticos optaram por seguir assim, por negligenciar. E ainda corremos o risco de dizer que “não fomos responsáveis pela proliferação”. Mas e se você, leitor, fosse o líder. Teria feito diferente? Teria suspendido o carnaval por um ano ou adiado? Talvez sim, entretanto, o que tenho visto é muitos continuam negligenciando a situação, como fizemos no carnaval. E por que? Para um resultado a curto prazo.

Observe quantos empregados domésticos continuam indo trabalhar! E não me refiro apenas à faxineira. Me refiro sim a faxineira, mas também ao jardineiro, ao pedreiro que está fazendo uma reforma na casa, ao pet walker que passeia com os cães, a massagista, ao personal trainer, e outros tantos profissionais que passam sabe lá por onde adquirindo e transmitindo vírus de um lado pro outro.

Ah, mas minha massagista vem de carro. E você sabe onde ela passou? Sabe se na hora que ela abasteceu o carro e pagou mesmo com cartão, outra pessoa não havia contaminado a maquinha?

A responsabilidade é de todos! Até quando a população vai continuar negligenciando a situação? Até quando a massagem de agora é tão urgente? Será que você mesmo não pode cuidar da limpeza de sua casa e evitar que entre aquela sujeira que você não vê: o vírus? Será que você mesmo não pode dar uma volta com seu cachorro? Até quando tudo isso será tão urgente? Você já imaginou que, se você pegar o tal vírus, tudo isso não poderá ser realizado por um bom tempo? Sua decisão a curto prazo pode impactar a longo prazo.

Muitas dessas pessoas precisam de alguns empregados domésticos para poderem ir trabalhar porque simplesmente as empresas ainda não aderiram ao home office. Isso me faz questionar até quando as empresas vão continuar contribuindo para um sistema suicida, não sustentável? Estudamos tanto, desenvolvemos técnicas de gerenciamento e liderança, e não sabemos aplicar. Não sabemos porque continuamos buscando resultados imediatos. É mais fácil derrubar uma floresta e construir um conjunto residencial de moradia popular que urbanizar favelas e dar condições salubres de vidas àquelas pessoas. É mais fácil continuar gerando resultados com impactos negativos que repensar e refazer todo o sistema operacional de uma empresa. É mais fácil negligenciar o corona vírus e não realizar redução de equipe local para manter 100% da operação funcionando, sendo que o risco é de perder aquele (s) funcionário (s), muitas vezes, de grande influencia na empresa.

Ser humano, chegou a sua hora de mostrar porque você é tão racional. Digo racional no sentido amplo, de saber pensar. E saber pensar inclui resultados a longo prazo, seja para as empresas, seja para ações em relação ao corona vírus, seja para o carnaval.

A Agenda Urbana Brasil é um grupo de pessoas que se questionam constantemente, buscando soluções para as situações que enfrentamos. Esse texto é também resultado de uma reflexão em grupo. Pensar a vida em conjunto e as ações organizacionais como parte de um Planeta é ser racional, é ser humano.

Lívia Macêdo de Alencar
Lívia Macêdo de Alencar é Gestora de projetos, certificada PMP; mestre em Gestão de projetos pela Uninove; MBA em marketing, pela FGV; e Bacharel em Publicidade e Propaganda pela UCSal, com 15 anos de experiência na área. Atua com projetos sustentáveis e é voluntária no Coletivo Guardiões da APA Bacia do Cobre / São Bartolomeu (Salvador - BA).