O que a poluição na China tem a ver comigo?

poluição na China
poluição na China / foto: pexels

Esta semana foi notícia a diminuição da poluição na China. As imagens da NASA (agência espacial estadunidense) comparam o nível de dióxido de nitrogênio (NO2) entre janeiro/fevereiro de 2019 e janeiro/fevereiro de 2020. A queda no nível de poluição do ar coincide com a restrição imposta na locomoção/transporte e atividades industriais pela China, à medida que avançou sua quarentena de milhões de pessoas, em decorrência do corona vírus.

De acordo com a Agência de Proteção do Meio Ambiente Estadunidense (EPA, na sua sigla em inglês), uma concentração elevada de NO2 no ar pode agravar doenças como a asma e provocar outras dificuldades respiratórias. Ainda segundo a Agência, o transporte terrestre (carros, caminhões e ônibus) emite mais de metade dos óxidos de nitrogênio presentes no ar ao longo de seu ciclo de vida – desde a extração de materiais para a fabricação do veículo, produção, vida útil (incluindo a manutenção e operação) e descarte. Ou seja: para além do combate às mudanças climáticas, a saúde humana hoje depende urgentemente de repensar nossos meios de transporte terrestre.

Carros elétricos já estão fazendo sua parte, mas a introdução acentuada de caminhões e transporte em massa elétricos pode eliminar completamente a emissão de poluentes do trânsito. Além disso, servirá também para impulsionar a geração distribuída de energia elétrica (energia limpa – eólica e solar), o uso do hidrogênio como combustível e o desenvolvimento de baterias mais leves, eficientes e com maior potencial de armazenamento de carga.

A cidade chinesa de Shenzhen conta com uma frota coletiva 100% elétrica: 17 mil ônibus e 12,6 mil táxis. Na América Latina, Santiago do Chile, conhecida por sua poluição aérea, é a cidade com o maior número de ônibus elétricos (386 em outubro/19). No Brasil, temos iniciativas tímidas, principalmente em São Paulo e região, sendo que a maioria são os “trólebus”, que usam cabos aéreos para alimentação. No entanto, destaca-se o primeiro ônibus elétrico movido 100% a energia solar, desenvolvido pela brasileira WEG, que atualmente opera apenas uma rota entre a UFSC e seu Laboratório Fotovoltaica.

O ônibus elétrico, além de melhorar a qualidade do ar externo, é mais confortável para o passageiro, pois é silencioso e mais estável. Ademais, estudos mostram que os custos operacionais e de manutenção são menores. No entanto, sua implantação exige uma série de cuidados e planejamento: rotas que atendam sua autonomia; previsão do tempo de recarga da bateria (hoje em torno de 1h30) e localização dos pontos de recarga; financiamento/incentivo governamental para aquisição e operação da frota, etc.

Ainda, o ponto mais importante no planejamento: o estímulo ao usuário de transporte particular (carro próprio) a usar o transporte coletivo. Isso é feito com base em políticas de desincentivo ao uso do carro (ruas pedestriais, proibição de carros nos centros das cidades, pedágios, vias exclusivas para caronas, redução de estacionamentos, etc) assim como políticas de incentivo ao uso do ônibus (vias exclusivas, pontualidade, frequência propícia, conforto, segurança, pontos de ônibus adequados às condições climáticas, tarifação justa e estimuladora – cartões de uso livre semanais/mensais, etc).

Cabe ao cidadão pressionar o governo local para tomar essas medidas que, no final das contas, beneficiam o indivíduo com qualidade de vida (saúde e tempo de deslocamento) e melhoram o trânsito e a vida coletiva.

Renata Scotti
Renata Scotti é engenheira eletricista pela Universidade Federal de Uberlândia e mestre em engenharia e gerenciamento do desenvolvimento sustentável pela Université de Technologie de Troyes. Membro da Agenda Urbana Brasil, é apaixonada por economia circular e luta pela abolição do plástico descartável.