Porto Alegre – RS 10/6/2020 – Trabalhamos há 10 anos para fomentar uma rede de investigadores que desenvolvam estudos inovadores para nossa população

Trabalho do Latin American Cooperative Oncology Group evidencia importância do investimento na produção científica nacional

Uma pesquisa brasileira foi um dos destaques das sessões orais do Encontro Anual da American Society of Clinical Oncology, principal evento mundial de Oncologia, realizado no fim de maio. O congresso da ASCO traz as novidades e tendências para prevenção, diagnóstico e tratamento de câncer. Este é o primeiro estudo realizado e conduzido integralmente na América Latina a receber este destaque, devido a importância dos resultados para milhares de pacientes com câncer de próstata, o tumor mais prevalente entre os homens, depois do câncer de pele não-melanoma.

O estudo clínico de fase II – LACOG 0415, coordenado pelo Latin American Cooperative Oncology Group (LACOG) e liderado pelo oncologista Fernando Maluf, avaliou uma opção às terapias já consolidadas, mas que utilizam mecanismos que ainda trazem muitas alterações na qualidade de vida dos homens que passam pelo tratamento.

Pacientes com câncer de próstata com doença metastática, doença localmente avançada sem possibilidade de tratamento curativo ou com recorrência bioquímica da doença após tratamento local (prostatectomia ou radioterapia), têm como base de tratamento castração cirúrgica ou química (com análogos do GnRH). Entretanto, esta estratégia, apesar das altas taxas de resposta, acarreta em eventos adversos significativos.

A pesquisa

Os pesquisadores buscaram novas opções terapêuticas efetivas e seguras para esse grupo de pacientes, com medicamentos de uso via oral, já aprovados para tratamento de câncer de próstata (abiraterona e  apalutamida), mas sem associar castração química (sem uso de análogos do GnRH).

No período de  outubro de 2017 a abril de 2019, em 14 centros brasileiros de pesquisa em Oncologia coordenados pelo LACOG, 128 pacientes  com câncer de próstata metastático, localmente avançado sem possibilidade de tratamento curativo  ou com recorrência bioquímica da doença após tratamento local participaram deste estudo. Os pacientes foram  selecionados aleatoriamente em 3 grupos de tratamento: análogo de GnRH e abiraterona (tratamento convencional), apalutamida (tratamento experimental 1) ou apalutamida e abiraterona (tratamento experimental 2).

A eficácia dos tratamentos foi avaliada através da proporção de pacientes em cada grupo, com queda do antígeno prostático específico (PSA), substância produzida em níveis elevados  pelas células do tumor de próstata, a um nível ≤ 0,2ng/mL após 25 semanas de tratamento. Os  pacientes foram monitorados e avaliados periodicamente. Na semana 25, as proporções de  pacientes que apresentaram queda no PSA para um nível ≤ 0,2ng/mL foram: 75.6% no tratamento   convencional; 60% no tratamento com apalutamida e 79.5% no tratamento com apalutamida e  abiraterona. Além disso, os 3 tratamentos apresentaram  diminuição de PSA e controle de doença, isto é não haver progressão do tumor, similares. Os três grupos de tratamento apresentaram perfil de segurança adequadoe qualidade de vida semelhante, porém um dado interessante foi a manutenção dos níveis de testosterona em níveis normais naqueles que receberam apalutamida. Assim, ampliam-se as possibilidades de novos tratamentos a serem investigados em estudos de fase III, nesse cenário. 

“Este estudo brasileiro é a primeira pesquisa mundial que compara formas novas de hormonioterapia que não levam à diminuição dos níveis testosterona versus a clássica castração, que causa uma série de efeitos colaterais tão indesejáveis”, afirma o oncologista e pesquisador Fernando Maluf. “ E, principalmente, consolida a relevância da pesquisa clínica no Brasil, abre caminho para novos projetos científicos de alto interesse, sendo uma motivação para que mais investigadores proponham projetos que contribuam para o avanço da Saúde”, completa Maluf.

“A América Latina registra, anualmente, mais de 1 milhão de novos casos de câncer, mas participa de apenas 5% dos estudos clínicos sobre câncer em andamento do mundo”, ressalta Gustavo Werutsky, diretor-geral do LACOG. “ A apresentação de uma pesquisa brasileira no maior congresso de Oncologia do Mundo é um marco histórico para nós, que trabalhamos há 10 anos para fomentar uma rede de investigadores que desenvolvam estudos inovadores para nossa população, que também tenham relevância internacional”, destaca Werutsky.

Sobre o LACOG

O LACOG ​- The Latin American Cooperative Oncology Group  é uma organização sem fins lucrativos, fundada em 2009, é o primeiro grupo cooperativo multinacional na América Latina exclusivamente dedicado à pesquisa clínica em câncer.​O LACOG conta atualmente com mais de 400 membros investigadores de 194 instituições em 16 países.

O grupo desenvolve estudos observacionais para avaliar o diagnóstico, o tratamento e a sobrevida dos pacientes com câncer na América Latina, em vários tipos de tumores, e também desenvolve estudos clínicos com medicações novas nesses países. O objetivo principal é estudar a população latino-americana e como o tratamento impacta na vida desses pacientes, assim como  desenvolver estudos inovadores com drogas novas e também em parceria com outros grupos colaborativos do mundo.

 

 

Website: http://www.lacogcancerresearch.org/