Quando nos deparamos com situações críticas, invariavelmente nos perguntamos: o que o “governo” vai fazer para resolver isso?

E o governo, no caso, tanto pode ser municipal, estadual ou federal. Tanto pode ser o executivo como o legislativo: é o governo, pois esses dois poderes não agem isoladamente. E, quando o fazem, aprontam lambança. Mas também fazem lambança, e as vezes maiores ainda, quando agem um contra o outro, como tem ocorrido ultimamente.

O princípio democrático, emanado de nossa constituição diz que os poderes agem, ou devem agir, em defesa dos interesses dos cidadãos. Quer dizer, tudo que qualquer integrante do poder público fizer, deverá ser para atender a essa regra básica atender ao bem do cidadão. E quando não atendem a esse princípio, estarão, não só ofendendo a lei, mas principalmente negando-se a si mesmo.

Isso implica dizer que qualquer representante do poder público que deixa de cumprir a lei ou nega-se a si mesmo, não só está se condenado ao fracasso em reação à sua razão de existir como também perde sua condição de representante do povo.

Esse princípio nós o aprendemos com Aristóteles, pesador grego que viveu no seculo IV aC. No seu livro “Política” (Livro III, cap VI), faz o seguinte comentário:

Antigamente, como é natural, cada qual se alternava nos cargos; então, alguém que estava ocupando uma magistratura olhava pelo interesse de quem não estava, o qual, igualmente, olhava pelo interesse dos outros quando estivesse ocupando uma magistratura. Mas, atualmente, com o objetivo de obter vantagens no exercício dos cargos, os homens querem conservar esses cargos para si, como se o fato de continuar os ocupando lhes conferisse saúde”.

E o filósofo grego completa:

Os governos que têm em vista o interesse comum estão constituídos em conformidade com os princípios da justiça e, portanto, estruturados corretamente, mas aqueles que têm em vista apenas o interesse dos governantes são todos falhos e formas desviadas das instituições corretas”.

O que esse discurso de 2400 anos tem a nos dizer? Qual a repercussão disso em nosso momento atual de enfrentamento da COVID 19?

Trada-se de algo muito simples! Trata-se de analisarmos os comportamentos e posturas daqueles a quem chamamos de prefeitos, governadores, presidente e, evidentemente seus correspondentes do legislativo. Trata-se de olharmos o que esses personagens estão fazendo e a partir do que fazem respondermos a pergunta título desta fala: Pra quem governam os governantes?

Em nível nacional vemos o presidente pisando na bola, nadando contra a corrente e entrando em confronto com as orientações da ciência médica. E, com isso, se conflitando com o legislativo. O que, um e outro, pretende com essa postura? Essa postura trará algum benefício, para o povo? Qual? Essa postura pretende melhorar a vida do povo ou tirar proveito da situação?

A mesma indagação vale para o nível estadual e municipal. Num e no outro níveis, não vemos a preocupação de atender às necessidades do povo mas, a partir de várias circunstâncias a preocupação de tirar vantagem da executivo e legislativo, cada poder tentando dizer que está fazendo o melhor para o povo, mas a população continua sem ser beneficiada com esse “melhor”. Então volta a indagação: para quem estão governando?

Muito mais do que as lições de Aristóteles, de 2400 anos, ao que nos parece os homens do poder estão seguindo as lições mais nefastas de “O Príncipe” de Maquiavel (cap VIII), uma vez que suas ações resultaram, como acima se disse, não do favor de alguém mas de sua ascensão na milícia, obtida com mil aborrecimentos e perigos, que lhe permitiu alcançar o principado e, depois, mantê-lo com tantas decisões corajosas e arriscadas. Não se pode, ainda, chamar virtude o matar os seus concidadãos, trair os amigos, ser sem fé, sem piedade, sem religião; tais modos podem fazer conquistar poder, mas não glória.”

Esse panorama das posturas daqueles que chegaram ao poder, para governar ou legislar, nos sugere que esses personagens são grandes dissimuladores. Ou seja: dizem aquilo que o povo quer ouvir, a fim de se elevar ao poder, mas no momento em que o povo se encontra em dificuldade seu líder será o primeiro a explorá-lo. E, outra vez, a lição foi aprendida com Maquiavel (cap X): “Mas é necessário saber bem disfarçar esta qualidade e ser grande simulador e dissimulador: tão simples são os homens e de tal forma cedem às necessidades presentes, que aquele que engana sempre encontrará quem se deixe enganar

Diante ou em meio a uma situação crítica e frente a indagação popular: O que o “governo” vai fazer a respeito? A resposta está na experiência de anos de sofrimento: diante da crise o governo (legislativo e executivo) vai ludibriar o povo e aproveitar-se da situação.

Que resta ao povo?

Que podemos dizer?

Em tempos de Pandemia, o que resta ao povo é seguir os ditames da sabedoria e precaver-se contra as artimanhas do poder. O poder se disfarça para não manifestar seus interesses inconfessáveis. Por seu lado, neste caso, a sabedoria vem da ciência.

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Neri de Paula Carneiro
Neri de Paula CARNEIRO - Mestre em Educação UFMS (2008); especialista em metodologia do ensino superior, UNESC-RO (2002); licenciado em história pela Universidade Federal de Rondônia (1999); bacharel em Teologia pela Instituto Teológico de Santa Catarina (1989) graduado em Filosofia - Seminário Arquidiocesano Instituto Paulo VI - Londrina (PR) (1984). Professor concursado do Estado de Rondônia. Tem experiência no magistério desde 1992, como professor de ensino médio e superior, atuando nas áreas de Filosofia, História e Educação. Atua como colunista semanal em jornais regionais. Produtor e apresentador de programa radiofônico. Desenvolve atividades voluntárias ligadas à Igreja Católica, em Rolim de Moura-RO.