Dia Mundial Sem Carro
Dia Mundial Sem Carro / foto: pexels

Especialistas comentam sobre a importância de se reverter o atual modelo de mobilidade urbana e o futuro das cidades

Nesta quarta-feira, 22 de setembro, é celebrado o Dia Mundial Sem Carro e o objetivo da data é alertar a população sobre os malefícios do uso do carro e promover a conscientização social, incentivando o desenvolvimento de novas políticas públicas e a mudança no estilo de mobilidade, a fim de evitar um impacto ainda maior sobre o meio ambiente nos próximos anos.

Para Jorge Paixão, coordenador do curso de engenharia civil no Centro de Ciências e Tecnologia (CCT) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) campus Campinas, o maior objetivo da data é unir esforços para concretizar as mudanças necessárias na mobilidade atual, trazendo propostas inovadoras de otimização dos meios de transportes. “Com isso, nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), observa-se a meta 11.2 que propõe um acesso de sistema de transporte mais seguro, acessível e sustentável até o ano de 2030. Temos, então, nove anos para melhorar a mobilidade e também, a segurança rodoviária por meio da expansão de transportes.”, afirma o professor.

Angélica Alvim, diretora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da UPM, observa uma expansão contínua do uso de carros nas cidades, sem a divulgação de políticas públicas que promovam uma mobilidade ativa e sustentável. “É fundamental a conscientização da sociedade para os males provocados pelo uso do automóvel. Atualmente o modelo de transporte sobre o carro vem crescendo cada vez mais. A última pesquisa Origem e Destino, de 2017, apontou para um crescimento do transporte individual e um pequeno decréscimo do transporte público. Portanto, trata-se de uma matriz que deveria ser invertida, deveríamos ter decrescido o uso do transporte individual e aumentar o uso do transporte público”, afirma Alvim.

Quem também observa a mesma problemática é o professor Vladimir Maciel, coordenador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica (CMLE). Segundo ele, com a pandemia, mais pessoas voltaram a usar o carro devido ao alto risco de contaminação nos transportes públicos. “Ao longo da pandemia, a gente percebeu que o número de carros na rua aumentou, revertendo uma tendência de diminuição do uso de carros e maior aumento de transporte coletivo”.

Paixão assinala que é necessário um reordenamento urbano para promover e otimizar o transporte, pensando em quais locais estão as maiores concentrações de trabalhadores, o caminho até o serviço e as condições tarifárias, visto que, estas têm passado por um ajuste. “Nós temos que observar todos os atores envolvidos, os motoboys, os pedestres, aqueles que usam transporte público, os agentes públicos que cuidam do trânsito, temos que ter um olhar diferenciado na cidade para que ela funcione e não fiquemos com medo quando pensamos em trânsito”.

A análise do professor vai ao encontro com a fala de Alvim, que alerta para a necessidade da ampliação da rede de transporte público para alta capacidade de atendimento das pessoas residentes em áreas periféricas, permitindo um deslocamento mais facilitado para as áreas de maior oferta de atividades econômicas.

Pensando nisso, Alvim chama atenção para outro ponto. “É importante estimular uma distribuição mais equilibrada das áreas de atividades econômicas das áreas de trabalho, para que os deslocamentos se tornem mais curtos”. A professora exemplifica o caso da Zona Leste de São Paulo, onde há poucas atividades econômicas e uma grande população que se desloca diariamente para o centro rumo às áreas de maior concentração de empregos.

Maciel observa como um dos maiores desafios na mobilidade é o uso crescente dos veículos elétricos em países como Estados Unidos, onde os transportes consomem mais energia elétrica que não é considerada uma matriz totalmente limpa. “Se ao mesmo tempo em que o veículo não vai emitir poluentes nas capitais mais poluídas e nos principais países, ele também irá consumir mais energia elétrica e esta geração não dá pra ser feita completamente limpa, então você pode estar transferindo, em muitos casos, a poluição do lugar”, afirma o especialista.

No caso do Brasil, o desafio se torna ainda maior pela crise energética e problemas ambientais. “Demandar mais eletricidade não significa necessariamente mais energia limpa, e sim acionar mais termelétrica, gás ou diesel, que são poluentes. Neste caso, você pode tirar a poluição das capitais e transferir para região onde estão as termelétricas”, finaliza Maciel.