A Itália superou a China em mortes relacionadas ao coronavírus (COVID-19), registrando 3.405 mortes em 19 de março, contra 2.978 no país asiático. O aumento é ainda mais grave considerando que a Itália tem 60 milhões de habitantes, enquanto a China possui 1,3 bilhão.

A Itália tem a maior população idosa da Europa e adotou uma política de “lockdown”, ou seja, fechar ou restringir a atividade de estabelecimentos comerciais e mandar que a população fique em casa, além de proibir aglomerações. As medidas, porém, foram apontadas como insuficientes por especialistas médicos chineses que ajudam a China a combater a pandemia.

Em Wuhan, na China, primeiro foco da doença no país, já ocorre uma tendência decrescente em relação ao pico da doença apenas um mês após a adoção da política de “lockdown”. O país adotou medidas agressivas que incluem desde quarentena total em regiões de foco da doença até barricadas na própria Wuhan, para impedir que as pessoas saiam dos bairros da cidade, controle sanitário e medição de temperatura das poucas pessoas que conseguem permissão para sair. Como resultado, a China eliminou a transmissão local do coronavírus.

Voltando para a Europa, no dia 13 de março, o governo belga solicitou aos cidadãos para evitarem saírem de suas casas. Dados obtidos da plataforma da Universidade de Johns Hopkins (JHU) sobre esse período indicam claramente um decréscimo da taxa de novos casos de coronavírus em um intervalo de três dias, que desceu de 32,4% em 15 de março para 14,9% em dia 17 de março.

Os dados são atualizados diariamente para cada país e são mostradas as estatísticas dos números de novos casos, número de mortes, número de caso ainda ativos (não curados) e número de casos curados – vamos aqui, então, traçar um paralelo entre Brasil e Bélgica.

Por outro lado, no Brasil, as pessoas foram às ruas, e a taxa de novos infectados saltou de 19% em 16 de março para 37,7% em 17 de março. Embora muitos defendam que as manifestações foram em ambientes abertos, e a propagação tenha menor probabilidade ao ar livre, eventos de tal porte sobrecarregam os veículos de transporte público, restaurantes e lanchonetes, e outros ambientes urbanos próximos às manifestações. O mais alarmante são os milhares de toques em superfícies (maçanetas de portas, catracas de ônibus e metrô), pessoas respirando e tossindo em ambientes fechados, filas nos caixas e consequentemente maior disseminação do vírus.

Por isso é fundamental a recomendação que evite tocar nos olhos, nariz e boca. A mãos tocam muitas superfícies e podem pegar vírus que permanecem nelas – estimativas indicam que o coronavírus sobrevive nas superfícies de 2 horas (poeiras) até 72 horas (plástico e aço inoxidável). Uma vez contaminadas, as mãos podem transferir o vírus para os olhos, nariz ou boca. A partir daí, o vírus pode entrar no seu corpo e deixá-lo doente.

As taxas de novos casos confirmados entre 18 de março e 20 de março mostram uma anomalia no caso brasileiro: os casos aumentam e depois caem drasticamente, fenômeno com baixa probabilidade de acontecer de forma natural. A conclusão mais provável, considerando as estatísticas, é que o poder público brasileiro esteja maquiando números da pandemia para pintar um cenário mais positivo do que aquele que realmente está acontecendo no país.

Tal abordagem é alinhada à postura do presidente, que vem repetidamente minimizando a gravidade da pandemia no país. Após reduzir as preocupações com o vírus a “histeria” e incentivar a população a se aglomerar em manifestações governistas, Bolsonaro afirmou que a doença “em alguns poucos casos pode levar a óbito”.

Pelo menos 20 pessoas próximas ao presidente testaram positivo para o coronavírus. Entre os infectados está o presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), Sergio Segovia, sobre quem Bolsonaro fez questão de dizer que não está sentindo nada e que segue “tudo normal a vida dele”.

Tentativas de maquiar dados dificultam a adoção de medidas apropriadas e podem causar ainda mais pânico quando chegam ao público. Recentemente começou a circular em grupos no WhatsApp um áudio do cardiologista Fábio Jatene, diretor do serviço de cirurgia torácica do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas, estimando que a Grande São Paulo terá 45 mil casos de coronavírus nos próximos quatro meses. A informação tinha o propósito de ser compartilhada apenas entre alguns médicos, não para a população geral.

Ao mesmo tempo, hospitais particulares já param de notificar os casos de coronavírus, alimentando uma discrepância entre o número de casos confirmados e a real dimensão da pandemia no país. Entre hospitais, profissionais de saúde e membros do governo ocultando informações sobre a pandemia, o cenário se torna cada vez mais preocupante no Brasil. Para combater a pandemia e ter alguma chance de sucesso, é necessário transparência, responsabilidade do poder público e, sobretudo, participação do povo brasileiro.

*Fabio Teodoro de Souza é professor do Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana (PPGTU) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), especialista na área de saúde pública e professor visitante na Universidade Católica de Leuven (KU Leuven) em Bruxelas.