Todos os dias de manhã, Zé da Roça chegava à Aldeia, em meio à festa das crianças, com cestas repletas de frutas. Eram as mais variadas, de todas as cores e gostos, conhecidas e desconhecidas. Muito bondosamente, Zé da Roça as distribuía entre todas as casas, conforme o número de pessoas em cada família. Todos os dias, acontecia a mesma coisa.

Alguns moradores da região, curiosos, passaram a espionar Zé da Roça para ver como ele conseguia tantas frutas assim. Numa noite, de madrugada, perceberam que o caboclo saiu de sua casa com um lampião na mão e adentrou a mata perto da barragem. Entrou lá pra dentro da mata, ziguezaguendo em caminhos que ninguém conhecia. Lá pras tantas, depois de muito andarem atrás do moço, os curiosos viram uma imensa árvore com galhos cheios de frutas de todas as cores e gostos, conhecidas e desconhecidas.

A árvore tinha frutos verdes e maduros, mas Zé da Roça, subindo no tronco, pegava apenas os frutos mais maduros e deixava os demais para os dias seguintes. Falava o nome de cada morador da Aldeia e escolhia a fruta do dia de acordo com o gosto de cada um.

Antes que fossem vistos, os curiosos empreenderam jornada de volta, regressaram para suas casas e se deitaram. De manhãzinha, bem cedinho, como de costume, Zé da Roça apareceu com os cestos cheios de frutas e as distribuiu para todos os moradores.

Naquele dia, quem seguiu o seu Zé da Roça não conseguiu frear a língua, e a notícia da Árvore da Abundância se espalhou em toda a Aldeia. Assim que o sol se pôs e Zé da Roça foi dormir, as portas das casas se abriram e a cidade inteira foi pra mata da barragem atrás da tal árvore de todos os frutos. Chegando lá, maravilharam-se com tanta abundância e cada um foi providenciar seu cesto para encher de fruta, cheios de ganância. Pegaram bananas e goiabas, mangabas e jatobás, cagaitas e mangas, cajamanga e cajuzinho do cerrado. Pegaram frutas maduras, mas também as verdes. Teve até quem arrancasse um galho inteirinho, prometendo plantar no quintal da própria casa.

De madrugadinha, quando todos já tinham ido embora, chegou o Zé da Roça pra colher as frutas do dia. Qual não foi sua surpresa ao ver a árvore toda depenada, desgalhada e desfrutada. Entristeceu-se amargamente e voltou para casa chorando.

Durante muitos dias seu Zé da Roça não saía de seu quarto. Temendo pelo pior, dona Maria entrou em sua casa e descobriu que o velho havia falecido de desgosto.

A cidade se enlutou. A árvore morreu e as crianças não festejavam mais, pois não tinha mais fruta para todo mundo de manhã.

Dona Maria foi quem chamou a vila toda uns meses depois e falou:

– Essa noite eu sonhei com o falecido Zé da Roça. Ele chorava e me falava o quanto se desgostou de ver a Árvore da Abundância toda desfrutada. Não tinha necessidade, ele falou. Ela sempre deu fruto pra todo mundo. Nunca faltava nada pra ninguém. Mas daí uma curiosidade e uma ganância tomou conta de tal forma, que cada um quis garantir pra si aquilo que era de todos. E a árvore morreu. Mas não se aquietem, não. Zé da Roça continua um homem bom, mesmo depois de falecido. Falou que tem como a árvore rebrotar, reflorescer. Pra isso, tem precisão que cada um aqui pegue um punhado do seu maior dom, o seu maior talento, e deposite na terra, no pé da árvore. E todo mundo junto deve depositar na terra, todos os dias um pouquinho, como adubo.

E assim eles fizeram. Em honra à memória de seu Zé da Roça, todo morador colocou um pouquinho de seu talento, fosse qual fosse, na terra da árvore. Poucos meses depois ela floresceu. As flores mais belas, de todos os tamanhos e de todas as cores. Pouco depois vieram os frutos, que agora eram colhidos na medida da necessidade de cada família e somente para cada dia.

Algum tempo depois, dona Maria sonhou com Zé da Roça de novo, mas dessa vez ele sorria.

(Publicado no livro Trilhas e Caminhos para a Sustentabilidade Ambiental em Escolas do Distrito Federal: http://www.adasanaescola.df.gov.br/Documentos/Trilhas_Caminhos_Versao.pdf)